Igreja Batista em Quitaúna

Enquanto estamos vivos

Meditações no Eclesiastes 1.3

Nessa vida que é uma névoa, um vento, uma constante mudança e transitoriedade, o sábio se questiona acerca do esforço árduo do humano debaixo do sol.

O trabalho é o empenho de nossas energias em uma determinada atividade. Investimos o nosso tempo, mente e músculos para alcançar um objetivo. Construir uma casa, desenvolver o código do um software, plantar e colher, dirigir um carro de aplicativo, vender algum produto, comprar outros, administrar algum negócio e assim por diante. Normalmente se acorda cedo para o trabalho, 5 ou 6 horas da manhã. O relógio desperta após um fim de semana de descanso. É segunda, a semana só começou. Transporte público ou carro, trânsito, sair cedo e voltar tarde. Tentar descansar do dia longo, pois amanhã tudo se inicia de novo, até a sexta. Novamente o descanso e tudo se repete. Chefe, reuniões, compromissos, horários determinados. “Mas as férias estão chegando”, pensamos dentro de nós no turbilhão da correria da vida. Nos nossos dias está melhor do que no passado. As jornadas de trabalho um dia foram desumanas de forma generalizada. Mulheres e crianças eram submetidas a situações de risco e desumanas. Um dia foi ainda pior! Submetidos por um autocrata, um rei, um ditador, um burguês, um dono de escravos, humanos trabalhavam sem opção, sem sonhos, sem perspectivas. A força de trabalho nem era vendida, tão somente usurpada pelos poderosos.

O sábio, em sua corajosa observação, coloca a sua questão: se a vida é uma névoa que se dissipa, qual o sentido de todo esforço humano? O que esse humano que tanto trabalha ganha? Para que despender suas horas, criatividade e energia se tudo passa? O que resta? O que vale a pena? Para que tanto sofrimento? Todos precisamos trabalhar, ter o nosso sustento, comprar comida, ter uma moradia, cuidar de filhos… Isso é óbvio. Mas a comida acaba, a moradia se desgasta, os filhos se casam. Tudo se dissipa… Para que tanto esforço e trabalho? Talvez alguém responda: para o lazer, pela qualidade de vida, para dirigir um carro bonito, para viajar para algum lugar legal nas férias. Obviedade. Tudo isso acaba também. Para quê tanto e esforço e dedicação se a vida é um sopro? Quem está em busca de entendimento aqui parece ter percebido que essa lógica de que somente o que é útil pode fornecer sentido está totalmente equivocada. O utilitarismo não é capaz de subsidiar o nosso esforço, pois tudo o que compramos quando vendemos nossa força de trabalho se desgasta, quebra, passa, morre. Esse parece ser o ponto: nosso trabalho e suas recompensas não devem ser um fim em si mesmos. Nosso suor que compra algum tipo de experiência ou algum bem material não supre nossa alma. É trabalho pesado jogado no lixo. Qual a alternativa?

Parece possível pensar que o sentido está nos instantes que vivemos ao longo da vida, inclusive de uma vida de trabalho pesado. Cada momento que está indo embora está abrigando o sentido mais profundo da existência. A vida em si mesma pode ser vista como o sentido. Vivê-la enquanto se trabalha, enquanto se descansa, enquanto colhemos o fruto do nosso esforço. Mas não é o trabalho, o descanso ou o esforço. O que vale a pena é, tão somente, podermos discernir o instante em que o suor escorre nos nossos rostos enquanto estamos vivos.

André Anéas

Apocalipse e os ventos de doutrina

Igreja Batista em Quitaúna
Igreja Batista em Quitaúna
Apocalipse e os ventos de doutrina
/

Efésios 04:14:15:16

André Anéas

Para além de um sopro

Meditações no Eclesiastes 1.2

“Vaidade de vaidades” é a expressão mais emblemática do livro de Eclesiastes. O sábio, esse que está em busca, diz que tudo é “vaidade”. Que isso significa?

Traduções que buscam captar o sentido mais profundo do termo em hebraico falam em “vazio”, “sopro” e “névoa”. Tudo, na ótica do escritor-pensador é, portanto, uma espécie de neblina que se dissipa (pegando carona no texto de Tiago 4.14), algo que não vale a pena. Imediatamente somos surpreendidos por essa afirmação contundente. Será que a vida não teria sentido? Será que a existência é uma aleatoriedade? Será que não há razão alguma para vivermos? É sempre necessário lembrar que quem escreve o faz com a coragem de afirmar coisas que observou e refletiu por anos, revisitando recorrentemente os pensamentos a partir da realidade que se vê com muita atenção. A afirmação do sábio, não deve ser acatada como equivalente a ideia de que a vida não tem sentido. Mas, conforme as percepções mais adequadas do texto nos ajudam a discernir, que a vida é um “vazio”, “sopro” e “névoa”. Sendo a vida essa “neblina”, algo que “não vale a pena”, os olhos de quem pensa podem observar algo que está para além das aparências. Em outras palavras, somente quando detectamos que tudo não passa de um sopro somos capazes de discernir aquilo que, de fato, vale mesmo a pena ou que se sustenta para além do vento, do ar e da névoa que se esvai.

A reflexão que estamos sendo conduzidos nos leva para a percepção de que as razões que justificam a existência não são tão óbvias. Somente quando temos a capacidade de olhar para tudo e ver um “nada”, conseguiremos ver, de fato, o que importa. Estar dentro desse movimento é assumir a caminhada em sua paradoxalidade – ser ou não ser; bonito e feio; eterno e finito; alegria e tristeza; presença e saudade; vida e morte; festa e luto; etc. –, característica da própria vida que muitas vezes nos assustam e chocam. Lidar com esse turbilhão de contradições dentro da caminhada pode fazer com que sedamos à tentação de “escapar” do problema. Ou, encontrar sentido em tudo: no dinheiro, no emprego, no sucesso, no consumo, no carro do ano, na rotina, na vida religiosa, etc. Justificar a vida a partir de obviedades, que nos ajudam a fechar os olhos para aquilo que o sábio insiste em querer que vejamos: nada faz sentido ou nada vale a pena. Reforço: somente quando temos coragem de perceber que as coisas que podem ser os “atalhos” para o sentido da vida não têm sentido, é que conseguimos encontrar sentido no que realmente importa nesse mundo efêmero.

A questão não é o jantar caro, mas a companhia; não é a família perfeita, mas o amor; a questão não é sobre o quanto ganhamos em nosso emprego, mas a satisfação interior de exercer nossa criatividade; não é a religião, mas a fraternidade; não é o tempo, mas os prazeres e as saudades; não é sobre os bens, mas sobre a generosidade e a gratidão; não é sobre ontem ou o amanhã, mas sobre o instante. É somente na relativização do obvio que habilitamos nosso olhar para discernir, para além das obviedades, os entrelugares de sentido de um mundo sem sentido, para além de um sopro.

André Anéas

Sem medo de amar

Igreja Batista em Quitaúna
Igreja Batista em Quitaúna
Sem medo de amar
/

Isaías 53: 02-05

A busca corajosa

Meditações no Eclesiastes 1.1

O escritor do livro de Eclesiastes, independentemente de quem seja de fato, se coloca como um “mestre” ou, em outras palavras, “alguém que está em busca”. Sim, pois ser um mestre, um pensador, um filósofo e, inclusive, um teólogo, significa ser alguém que tem coragem para se colocar em uma busca pela Verdade. Isso não significa encontrá-la literalmente de modo absoluto. Significa uma disposição interior e honesta de estar nesse caminho investigativo acerca de tudo o que existe diante dos nossos olhos e, também, dentro das nossas almas.

O que é a vida? O que é a existência? Quem somos nós? Qual o sentido do nosso esforço diário? O que são as alegrias e prazeres cotidianos? Afinal, qual o sentido da vida? O livro do sábio, esse que sabe, é o livro de alguém que mergulhou na arte de perguntar, de observar e analisar as coisas do mundo ou, melhor dizendo, da vida. Nessa busca não há pressa. Há tempo, muito tempo de observação, de um olhar atento e depurado sobre como as coisas verdadeiramente são. Reforço: ser um “sábio” nesse sentido envolve coragem. Por quê? Coragem para encarar de frente a realidade da existência, correndo o risco do solo seguro que sustenta as nossas justificativas da vida ruir e ficarmos sem chão. Coragem para, uma vez sem o chão dos nossos sistemas de plausibilidade, repensarmos nossos conceitos, ideias, teologias, filosofias e pensamentos. Reajustar, fazer novas sínteses e, até mesmo, jogar fora o que não nos serve mais. Não se trata de um exercício pontual, mas sim de uma disposição permanente de rever nossas dúvidas e respostas. Aliás, coragem para assumirmos as dúvidas e interrogações como coisas boas. Afinal, somente duvidando e questionando seremos capazes de amadurecermos. Coragem para mudarmos de rota e de norteadores em nossa caminhada. Coragem para deixar o velho para trás, preservar as lições aprendidas e criar o novo no tempo que se chama hoje. Coragem para duvidar de si mesmo (e rir um pouco também). Coragem de não aceitar as obviedades e clichês. Coragem para se reinventar, assumindo-se como um alguém que é capaz de se metamorfosear enquanto se anda no caminho de quem não tem medo de pensar. Esse é o grande convite do sábio: adentrar uma intensa, incessante e corajosa busca que, em si mesma, já produz em nós o sentido de viver e que tem o potencial de abrir os nossos olhos para o que está diante dos nossos narizes e não somos capazes de ver.

Que seus olhos sejam abertos, caso tenha coragem de viver a aventura de pensar a vida.

André Anéas

Desigrejado igrejado

Igreja Batista em Quitaúna
Igreja Batista em Quitaúna
Desigrejado igrejado
/

1º Corintios 11:28

André Anéas

A experiência de Deus em todo lugar

Meditações no Salmo 150

Qual o lugar correto para se adorar a Deus?

Essa foi a questão da mulher samaritana, sendo respondida por Jesus de modo a relativizar os lugares sagrados para tal prática. Ele disse: “os verdadeiros adoradores adorarão em espírito e em verdade”. Ou seja, a verdadeira adoração não se refere a um lugar, mas a um coração. O salmista parece antecipar essa percepção, mostrando que Deus deve ser adorado tanto no templo de Jerusalém quanto nos céus, ao “ar livre”, no firmamento. O Eterno é digno de adoração para além dos limites geográficos de um determinado lugar. Sua beleza o torna digno de ser contemplado para além daquilo que o humano possa dar o nome de “sagrado”, pois Ele mesmo não está contido dentro desse tipo de limite humanamente determinado. A experiência de Deus em todo lugar diz respeito a nós enquanto quem experimenta Deus, mas também a Deus, enquanto um Alguém cuja presença misteriosa não possui limite algum. Qual seria o impacto dessa percepção em nossa maneira de experimentar o Mistério? Especialmente aos religiosos, trata-se de uma mudança drástica. Significa uma relativização do lugar de culto como lugar por excelência para louvar ao Senhor. Nessa relativização, a geografia não é mais capaz de determinar a qualidade de um encontro com o Divino.

Não existe mais nenhum lugar que não seja transformado e configurado como ambiente adequado para se achegar a Deus. Em outras palavras, sua casa é tão santa quando a igreja; seu trabalho é tão sagrado quando o parque em que você passeia com a família; a ceia do Senhor servida no ambiente religioso é tão santa quando a comida partilhada com quem tem fome. Todos os espaços são espaços de encontro com Deus, pois Deus é louvado, na verdade, no cosmo ou na Vida em si mesma. Vida essa que Ele é o doador. Esse “mergulho” na existência possibilita uma liberdade encantadora, pois, agora, verdadeiramente, a celebração nunca termina, seja no domingo na igreja ou na cochilada depois do almoço no meio da semana. Nessa liberdade, nosso coração adentra o lugar santíssimo transcendendo qualquer tipo de “parede sagrada”, tornando, no fim das contas, tudo sagrado. Que toda criatura louve! Que toda criatura louvo com criatividade! E, finalmente, que toda criatura louve em todo lugar, pois Ele é digno.

Pr. André Anéas

Os perigos de um coração endurecido

Igreja Batista em Quitaúna
Igreja Batista em Quitaúna
Os perigos de um coração endurecido
/

Mateus 13:10

André Anéas

A experiência de ser sinal de justiça

Meditações no Salmo 149

As dores da existência estão aí para quem quer ver. Injustiças, fome, guerras, intolerância, violência. Engana-se quem pensa que o Eterno está de braços cruzados diante das mazelas desse mundo. Ele está dizendo que isso “não é bom”. Em seu ímpeto em agir perante uma humanidade embriagada em sua maldade, ele faz um povo Teu.

Esse “povo de Deus” tem por missão testemunhar acerca da ética do Altíssimo perante todos os povos da terra. É chamado, vocacionado, a ser um sinal de Deus na história. O salmista deixa exalar em sua poesia o que emerge da sua alma sobre essa nobríssima tarefa. A experiência de ser sinal de justiçasignifica que esse povo deve ficar sempre ao lado dos oprimidos, pois esse “povo de Deus” sabe o que é ser oprimido. Essa experiência envolve, necessariamente, escolher priorizar os pobres e marginais da história, pois o “povo de Deus” foi pobre e marginal. O “povo de Deus” não é povo de um Deus qualquer, mas de um Senhor esvaziado, crucificado, ferido e morto, mas que ressuscitou para ser a esperança de que a morte não tem a última palavra e que a vida e o amor vencerão sempre os opressores da vida. Quem vive essa experiência se alegra, pois foi forjado nas mãos de um Deus que deu o exemplo. O salmista fala em louvor, celebração, danças. O “povo de Deus” é um povo alegre, pois sabe e conhece seu sagrado privilégio. Esse povo simples, salvo pela graça, está sempre com um sorriso no rosto. Essa alegria verdadeira não é fruto de uma alienação, mas de uma convicção de que vale a pena lutar e se engajar na missão de Deus. Nessa luta, embora muitas feridas e dores, existem os momentos de, com muita ternura, expressar a fé que brota do coração da gente, em apresentações que enaltecem aquele que toma sempre o partido do mais fraco.

Viver a experiência de ser sinal de justiça é um privilégio, que envolve alegria e compromisso. Envolve sorriso e seriedade. Envolve ternura e luta. Envolver música e o silêncio de quem resiste diante do mal. Envolve uma certeza na alma de que o “povo de Deus” será sempre um povo cujo testemunho de libertação proporcionado por Deus deixará sempre os reis e poderosos na expectativa de que um dia, a justiça divina irá imperar plenamente, reconfigurando o mundo em um lugar de liberdade, fraternidade e igualdade! Alegre-se e lute povo de Deus, tu és um sinal de justiça do Eterno!

Pr. André Anéas

Aqui é trabalho!

Igreja Batista em Quitaúna
Igreja Batista em Quitaúna
Aqui é trabalho!
/

Gênesis 02:15, Gênesis 03:17:19, 2º Coríntios 05:19

André Anéas