Meditações no Eclesiastes 7.2
A questão da morte sempre nos assombra de alguma maneira. Não sabemos exatamente quando ela virá. Em alguns casos sentimos medo dela. Em outros ficamos com raiva, pois ela nos levou gente querida e amada. Certo é que pairam dúvidas. Como é morrer? Como é o depois da morte? Teremos corpo? Lembraremos dessa vida? E por aí vai.
Nossa espiritualidade cristã nos ensina que a morte é inimiga, derrotada por Jesus ressuscitado. Esse é o caminho que nos fornece esperança diante dela. Ressuscitaremos também e viveremos eternamente. Porém, pensar sobre a morte exige delicadeza. Uma das coisas mais feias é quando o pregador em um funeral faz apelo para a salvação das almas das pessoas presentes. Todos tristes pelo ente querido que morreu… Não é momento de “ganhar almas”, é momento de consolar almas e produzir esperança. É um equívoco entender que a questão da morte e das coisas do futuro dizem respeito somente a eternidade.
Essa ênfase produz um modo de vivência da fé escapista, alienante e insensível – como o caso do pregador indelicado do funeral. O sábio parece perceber isso. As questões escatológicas dizem respeito as coisas daqui! O ambiente da morte, do luto, é tido pelo Eclesiastes como um lugar melhor do que o ambiente de uma festa. A questão aqui não tem relação alguma com especulações metafísicas sobre o que ocorre após a morte ou sobre o fim do mundo. É justamente o oposto!
A importância de estar em um momento em que nos deparamos com a morte é, na verdade, o que nos dá a oportunidade de pensarmos a questão da vida. Essa tensão da existência – vida-morte – é justamente a “dança” que nos coloca em estado de profunda reflexão sobre o ser-no-mundo. Viver sem pensar na morte pode ser um “viver automático”, de qualquer jeito, anestesiado, alienado. Quando a questão da escatológica da morte entra em nosso modo de viver, não deveria nos paralisar para esperar a eternidade, mas nos indagar: o que tenho feito com o tempo que me é doado? Esse salto existencial, impulsionado pela questão da brevidade da vida, abre espaço na alma para uma vida mais bonita. A questão da morte pode ser a oportunidade para pensarmos o tempo limitado que temos e como temos aproveitado a graça do existir.
A depender de como vivemos a vida, antecipamos a morte. Uma vida cheia de amargura, ressentimento, individualismo, vingança, ódio, inveja… A morte apenas não foi consumada, mas já está ali. Ao contrário, uma vida bela, cheia de amizade, generosidade, disponibilidade, empatia e amor é uma vida bem vivida, cheia de sabedoria e de mordomia com o tempo que temos em mãos. A morte ser vencida é esperança eterna que beija o nosso agora.
André Anéas