Meditações no Eclesiastes 5.2-7

Na tradição popular dizem que “o peixe morre pela boca”.

Esse dito está alinhadíssimo com a sabedoria das Escrituras. A língua, já disse Tiago, é pequena, mas tem uma potência maldita de incendiar tudo com o seu veneno mortífero. Em tempos de mídia social, em que todos têm voz, fato é que nos tornamos uma sociedade de tolos – Nelson Rodrigues disse que “o mundo seria dos idiotas, pois eles são muitos”. Nada melhor para identificar o tolo quando se dá um “microfone” para ele, nem que seja o “zap”. Tolos falam muito. Tolos falam sem pensar. Tolos falam do que não conhece. Provérbio 17.28 já disse que até o tolo calado se passa por sábio. Hoje não podemos nos dar esse luxo: ninguém quer parar de falar.

Muito antes do Novo Testamento, o sábio de Eclesiastes já tinha notado como o nosso falar compromete a nossa espiritualidade e nos coloca em uma situação delicada diante do Eterno. Ele nota que a relação com Deus não deve ser movida por orações cheia de conteúdo. Quanto mais se fala para Deus pior é, pois do muito falar e do muito prometer maior é o risco de falarmos bobagens e prometermos o que não vamos cumprir. Isso é tornar nossa oração “conversa fiada”. Quem sabe a provocação aqui nos conduza para orações mais silenciosas. Madre Teresa de Caucutá disse quando indagada sobre o que ela falava para Deus enquanto rezava: “Nada. Eu só escuto.” “E o que Deus fala?”, perguntaram mais uma vez. Ela respondeu: “Nada. Ele só escuta.” Há uma lição preciosa aqui. A relação com Deus não é uma relação conteudista. Pelo contrário, é uma relação contemplativa, em que, conforme aprendemos com os grandes mestres espirituais, o silencio reverente é central nessa experiência de Deus. É preciso nos aquietar mais, nos acalmar, diminuir a ansiedade, resistir a velocidade desse mundo barulhento. Além disso, o sábio detecta um dado verdadeiro sobre os humanos: nossa boca nos faz pecar. Contra o próximo e contra Deus. Com a língua amaldiçoamos, fofocamos, criticamos indevidamente, destruímos reputações, arruinamos relações, somos inconsequentes.

Quanto nos falta o controle sobre esse órgão pequeno e indomável que é a língua! Contra Deus prometemos o impossível, falamos para Deus para o outro ouvir, falamos tanto e ouvimos pouco, falamos mal, pedimos errado. O temor a Deus – uma verdadeira contrição e reverência diante do Eterno – não pode ser experimentado com “textões” em forma de oração. Devemos aprender a orar em silêncio para ouvir melhor o silêncio atento de Deus por nós.

André Anéas

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