Meditações no Eclesiastes 5.8-9

O sábio, que observa atentamente a humanidade, percebe algo muito antes de Marx: a dura realidade da opressão a qual os pobres são submetidos pelos opressores. Trata-se de algo que permeia o tecido social, a cultura de uma sociedade. Não há motivos para surpresa quando o pobre – hoje sabemos que é o empobrecido – tem seus direitos subtraídos. A falta de justiça é resultado de parte da humanidade que, dotada de poder, pisa em quem está embaixo. Essa “hierarquia social” tem uma lógica que se retroalimenta em cada “andar de poder”. Sempre há um corrupto, mas acima do corrupto tem outro pior, e assim por diante.

O que o sábio está tentando dizer? Que a injustiça é estrutural e é dificílimo combatê-la. Justamente por essa razão que ele alerta seu leitor/a: não se surpreenda, pois não se pode fazer nada para evitar. A realidade que ele acessa de maneira fria, amarga e verdadeira está permeada por seu ceticismo. Porém, como de praxe, a provocação nos interpela.

Primeiramente, porque devemos nos questionar: faço parte de alguma posição hierárquica que oprime o pobre, que retira direito de alguém? Essa perversão não é coisa apenas de reis e gente endinheirada. Nas muitas posições que podemos ocupar socialmente podemos oprimir alguém e agir de modo perverso, contrário ao desejo do Eterno, explorando o próximo em nome de lucro. Segundo, a fé não deveria superar o ceticismo? Ora, a esperança é alma gêmea da fé. Não há fé sem esperança e não há esperança sem fé. O salto da fé exige de nós esperançarmos diante da maldade, das injustiças e da subtração de direitos dos oprimidos do mundo. Quem vive a experiência da fé interditou o ceticismo, crendo para além do que os olhos podem ver. Não é cegueira ou alienação, mas confiança de que o negativo do real pode ser negado e um futuro positivo pode nascer. Terceiro, essa fé-esperança deve vir acompanhada de ação concreta, pois a fé sem obra é morta (Tg 2.26). Movidos pelo Espírito do Deus testemunhado nas Escrituras tornamo-nos ativos no processo de subversão da lógica desse mundo, anunciando um novo mundo, o Reino de Deus.

Por fim, o sábio abre caminho para algo apavorantemente lindo, o fato de que a terra, a “boa terra”, não trapaceia o ser humano, inclusive o opressor, pois, mesmo um rei injusto, se alimenta do que ela produz. Que chocante essa constatação! A graça divina é fonte de vida – terra-alimento – para todos e todas. Isso deveria ser um sinal poderoso para cada um de que a opressão é uma contradição e uma perversão do que a terra – Deus gracioso – nos fornece.

Entretanto, devemos lembrar a mesma terra “clama pelo sangue de Abel”, o justo. Que a partir da provocação do sábio possamos contribuir com mudanças contundentes sobre como vivemos e vemos a vida. Surpresa terrível seria sermos engolidos pela terra que dá de comer até aos reis injustos.

André Anéas

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